Percepções: sacrifícios

Começo uma nova série de posts. A intenção é compartilhar um pouco da minha visão de mundo, o resultado dos meus questionamentos. A esperança é que alguém questione, que traga mais informações e some à minha “biblioteca” mental.

Pessoas gostam de se sentir parte de um grupo (políticos, religiosos, espirituais, intelectuais, e outros) e que para manter essa condição precisam de sacrifícios – o que as faz parecer especiais, escolhidas.

A isso servem os dogmas, os jejuns, os pecados. Deixa-se parte da vida como oferenda pela situação.

Como o cristão que não peca para viver no paraíso, o vegetariano que não come carne porque quer ajudar a mudar o mundo, o vilão que vê mais e “sabe” que precisa fazer o mal para um “bem maior”, ou o apaixonado que se afasta porque o objeto de sua afeição “não merece seu amor e precisa aprender”.

Amor, ainda

Quando eu perguntei qual era o sentido de sua vida ele respondeu que o que procurava era o amor, viver procurando por alguém a quem amar, com quem compartilhar.

Mas ele não entende nada sobre o amor.

Entende sobre inveja, sobre inseguranças, sobre medos.

Quando eu digo que os filósofos gregos só falavam besteira sempre vejo um rosto de desaprovação, sempre uma reprimenda, dizem que não entendo da vida, que eu é que brinco de rebelde.

Pois vá aquele que diz que vive para o amor ler sobre o que disseram sobre o amor. É irônico que eu diga que a melhor definição do amor que já vi está na Bíblia, o tradutor usou a palavra caridade no lugar de amor:

A caridade é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O dom da profecia acabará, o dom das línguas há-de cessar, a ciência desaparecerá; mas a caridade não acaba nunca. De maneira imperfeita conhecemos, de maneira imperfeita profetizamos. Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Mas quando me fiz homem, deixei o que era infantil. No presente, nós vemos como num espelho e de maneira confusa; então, veremos face a face. No presente, conheço de maneira imperfeita; então, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade.

1 Cor 13, 4-13

Platão diz que o amor é livre de paixões, é a coisa mais pura e virtuosa. E se a ele é somada a obsessão, se os amantes convivem, o sentimento se torna ódio.

Que engulam a reprovação a meu comentário. Porque essas mesmas pessoas acreditam que isso é coisa de loser.

Você que pensa que vive para o amor, não entende NADA sobre ele.

PS: Você, leitor, que sentir a carapuça servindo, fique tranquilo, meu exemplo não lê nada que eu assine. Ele me odeia. HAHA

Amor, amor

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?
Camões

What is this Love that so many speak of with such apparent familiarity? Do they truly comprehend how unattainable it is? Are there not as many definitions of Love as there are stars in the universe?
The Bene Gesserit Question Book

Entrelinhas

Quando você me conta uma história, não me conta só o que fala. Conta também como faz suas escolhas, porque foi esta história que você quis, não outra. Conta também seus valores, você julgou aquilo ruim ou bom, quem era o mau a ser vencido? E seus valores contam quem você é, pelas escolhas sei o que quer esconder.

Conto a conto, como uma brincadeira de ligar pontos, me desenham suas fraquezas, seus pontos fortes, suas defesas, um esboço da sua alma se faz.

Coisas inimagináveis se escondem nas entrelinhas , num reino de sombras e “submensangens”. Tanta contradição, tantas mentiras. Mas não mentiras ditas a mim, falsas idéias enganando o próprio locutor.

Camões

Tem uma lenda sobre o autor dOs Lusíadas que talvez seja menos que isso, realidade.

Enquanto escrevia sua obra-prima, enquanto vivia no Oriente, se apaixonou por Dinamene, uma chinesa. Mas numa viagem o navio naufragou, ela não sabia nadar, ele preferiu salvar seu poema, nadando com um só braço e com outro enguerdo-o para mantê-lo seco, ela se afogou, morreu.

Depois disso escreveu poemas sobre o amor, sobre sua amada.

Também achei uma suposta carta que o poeta escreveu antes de morrer. Vejam como, talvez, ele termina a carta:

Estes meus últimos anos foram amargurados pela doença e pela miséria, e assim foi a minha vida, cheia de aventura e desgraça, mas o certo é que foi um grande poeta, fiz o que sempre quis e não me arrependo de nada.

A veracidade dela não importa, já que só ilustra o que digo.

Fez tantos sacrifícios para viver como queria, se ofereceu à miséria pela aventura, à doença pela experiência. Para mim ele não é só um grande poeta, é um grande homem.

É dos poucos a quem dedico admiração (que só dou a quem pode fazer sacrifícios por algo maior que o amor, o bom-senso e o conforto).

Ler, ler, ler.

Livros, livros, livros.

Cada vez ando lendo mais. E agora a faculdade de Letras, e a Abril lançou a coleção de clássicos, e me meti a ler a série Sookie Stackhouse. Já faz uns três meses que estou na média de um livro por semana, mas não está sendo o suficiente!

Leio um pouco de manhã, leio um pouco na hora do almoço, mais um pouco de tarde, indo pra aula, no intervalo da aula, antes de dormir, passo a tarde dos fins de semana lendo.

Ler. Ler. Ler.

Se eu ainda fosse o leitor observador, mas não, eu me envolvo na história, sonho com os personagens, fico tenso, sorrio, choro.

Pelas minhas contas já li por volta de 10 livros neste ano, e nem completamos o primeiro quarto do ano. Já virou o período que mais li, depois desse só aquele semestre que li 18, quando tinha 14 anos. Com certeza passo o número neste semestre.

E pra piorar tudo, ando com vontade de ler poesia. Estou ansioso pra chegar às bancas Os Lusíadas, da coleção da Abril, que só vem em agosto.

Mas deixa-me ir, tenho muito que ler hoje ainda.



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13
Dec
2010

Daniel E.

“Meu distúrbio, não diagnosticado pelos mais renomados especialistas, não aceito pelos filósofos e religiosos, torna insuportável a minha vida. Todos à minha volta temem a morte, eu temo o nascimento. Devo explicar a minha situação, porque não tenho amigos que saibam dela e pretendo terminar a minha vida de uma forma que me seja familiar [...]

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