Como a vida deveria ser

Não importa a direção, não importa a velocidade
Não importa o motivo, não importa a música
Não importa a causa, não importa a consequência
Importa a dança

Eu chamo minhas tristezas
Eu chamo milhas alegrias
Eu chamo lágrimas e sorrisos
Eu chamo convulsões e sonos
Que dancem comigo

O passo anterior e o passo seguinte não existem
Existe meu passo de agora
Que dancem comigo as confusões e as certezas
Que dancem as lágrimas ao cair
Que cantem os sorrisos

Não importam morais, não importam culpas
Não importam recompensas, não importam sentimentos
Não importam tesouros ou memórias
Que dancem por dançar

Que dancem pelo simples movimento
Que o movimento seja o repouso
Que a dança seja por si só
Com deuses ou demônios
Só por ser dança

Um amor que ṇo houve Рum texto de Danuza Lẹo

A Vânia me passou esse texto, estávamos falando de amores platônicos.

Ele foi apaixonado por ela. Não, apaixonado não é a palavra: era um bem-querer que ultrapassava qualquer necessidade de tocar seu corpo, beijar sua boca e acabar na cama.

Não que isso estivesse fora de qualquer cogitação, mas não era o objetivo final; aliás, não havia objetivo nenhum, a não ser olhar e ir gostando cada vez mais. Gostar para nada, o que se naquele tempo já era difícil de entender, imagine hoje de explicar.

Durante muito tempo ela fingiu que não entendeu; gostava dele mas assim, nada de mais, e às vezes até incomodava aquele homem que olhava para ela tão sério, com um olhar tão grave.

Com ele por perto era difícil dar risada, fazer charme, sair dançando. Os encontros eram quase mudos, e as moças de 20 anos sempre preferem jovens rapazes com quem se divirtam, rapazes que insistam muito para que elas possam dizer não, mas sempre ficando por perto, para poder testar seus poderes de sedução. Com ele era diferente: ela não provocava, quando se sentava cobria as pernas e chegava a parecer pudica, quando ajeitava o decote. Ela não provocava porque não era preciso, e com ele não dava para brincar; com ele era diferente.

O tempo passou; ele teve vários casos, ela se casou algumas vezes, mas sempre que se encontravam guardavam um silêncio respeitoso e nunca falaram de seus amores passados ou presentes. Esse era um assunto rigorosamente tabu, como se tivessem tido um caso de amor intenso; até os amigos comuns percebiam a delicadeza do tema, e disso não se falava.

Mais tarde, quando algumas vezes se cruzaram, ela com os filhos, era como se não fossem dela; ele simplesmente não registrava que eles existiam e nunca fez o mais banal dos comentários do tipo “parecem com você”. Não, essas convenções sociais para ele não existiam, e ela entendia.

O tempo continuou passando e eles se vendo cada vez menos; um dia se encontraram numa vaga festa, os dois solteiros e ele mal falou com ela. Foi estranho, e só um bom tempo depois ela soube que ele estava doente, de uma doença ruim. Mais uma vez entendeu, e nunca teve coragem de telefonar, nem fingindo que não sabia de nada, só para dar um alô. Ele era desses homens a quem não se pode nem tentar mentir, e ela respeitava muito tudo que não tinha acontecido entre eles para cometer a grosseria de fingir. Não, não com ele.

Um dia ele foi embora para sempre, coisa que acontece com algumas pessoas.

Muito mais tempo se passou e numa tarde de domingo, a troco de nada, ela começou a pensar nele. Por que, afinal, nunca tiveram nada um com o outro?

Não que ela fosse a rainha da castidade; tinha tido tantos homens na vida, mais um não teria feito nenhuma diferença, e ele teria ficado tão feliz; por que, então?

Ficou pensando: ela se divertiu muito na vida e fez muita bobagem, brincou infindáveis vezes de se apaixonar, muito machucou e muito foi machucada, mas levava a sério algumas regras de conduta que nem ela mesma sabia que tinha, mas que sempre respeitou. Uma delas é que não se pode brincar com os sentimentos dos outros, não quando eles são sérios; não de uma pessoa como ele.

Agora, anos depois, na tal tarde fria de domingo, fica pensando no quanto gostaria de que ele soubesse disso, que ele soubesse porque nunca houve nada entre eles, nem um bra̤o encostado, tipo por acaso. Ṇo que ele tivesse algum dia tentado, mas que gostaria Рah, disso gostaria, e muito.

Mas sente que ṇo foi preciso: ele, que era incapaz de mentir ou de fingir, sempre soube que ela, de uma certa maneira muito dela, tamb̩m nunca foi capaz de mentir ou fingir Рṇo em rela̤̣o a sentimentos.

Ah, mas tudo isso aconteceu há tanto tempo, por que pensar nisso agora? E por acaso faz bem? Não, nem bem nem mal; mas dá uma vaga sensação de que, afinal, não somos tão esquecíveis assim.

Se tivessem tido um caso daqueles a ferro e fogo estaria se lembrando dele agora?
Talvez sim, talvez não, mas com certeza não dessa maneira.

No fundo ela sabe, sempre soube, que eles se gostaram e de uma certa maneira se amaram, no que isso tem de mais sério, de mais direito.

Foi assim.



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13
Dec
2010

Daniel E.

“Meu distúrbio, não diagnosticado pelos mais renomados especialistas, não aceito pelos filósofos e religiosos, torna insuportável a minha vida. Todos à minha volta temem a morte, eu temo o nascimento. Devo explicar a minha situação, porque não tenho amigos que saibam dela e pretendo terminar a minha vida de uma forma que me seja familiar [...]

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