Os caminhos ao centro

Escrevi isso no meu antigo blog, em 30 de outubro de 2006. Eu escreveria algo parecido daqui a um tempo, tenho certeza, mas ler isso foi como ler uma carta deixada no passado que me dá as respostas que eu preciso hoje.

centro

Ontem eu tive a prova mór que na vida somos só o que somos, que não há mudança.
Tudo que muda é o ângulo daquilo que focamos, que desejamos, ao fim é tudo o mesmo.
Ontem eu fiz tudo como pensei que não seria capaz de fazer: tinha um trabalho pra fazer e não fiz, votei no Alckmin (em que mundo eu votaria no Alckmin? mas foi porque eu pensei em 2010, se o PSDB governasse agora estaria queimado o suficiente em 2010 pro Aécio não ganhar, e se o Lula não ganhasse agora não ganharia lá… arranjariam outros estorvos, mas a Heloísa Helena teria mais chances… e me contaram que o Lula disse que sabia que ia ganhar, mas teme um impeachment) e cortei o cabelo – eu disse que cortei, e realmente cortei.
Depois veio a ansiedade… eu quase passei mal ontem de tanta ansiedade. Daí eu tentei desenhar, e as mãos tremiam, eu não conseguia… então fui ler… e não conseguia ler. Então recorri ao que eu sempre recorro nessas situações: mantras!
Acalmei… mas não plenamente.
E lendo o fim dO Poder do Mito eu comecei a ter idéias pro meu grande conto, “meu filho”.
Campbell tentava explicar sobre o centro de todos nós, aquele ponto que nos faz indiferentes a todo esse sofrimento, que nos mantém fortes, que nos faz seguir em frente com ou sem esperança, quando ela não importa mais… o ponto eixo de si mesmo. Nesse ponto eu percebi que na verdade a minha história é a busca de um personagem por este “centro”, é a busca de um reino, de uma comunidade, de uma deusa, de um monstro… todos procuram este ponto em si mesmos…
E meu conto dO Frívolo era exatamente a mesma coisa! Ele tentava alcançar o centro da ilha…
Além disso, quando eu cortei o cabelo, que todos mais que sabem, era o meu “xodó”, meu grande apego… a sensação é antes de alívio que de perda… A perda me causa alívio na verdade. Sacrificar aquilo que se protege te livra da obrigação da proteção. Assim, comecei a imaginar minha vida se eu sacrificasse minha escrita… como seria. Provavelmente eu sairia por aí, indiferente a estar vivo ou não… nas minhas crises adolescentes tudo que me segurou ao querer viver foi isso, foi “meu filho”.
Como seria uma vida de sacrifícios? Abandonar tudo que se ama… deixar morrer tudo aquilo que abriga a esperança… Eu, antes de pensar que seria terrível, penso que seria leve, “sublime”.
Mas… desde pequeno acredito que escrever, ou criar, está acima de mim. Eu aprendi a escrever logo que soube o nome das letras e vi a primeira sílaba, eu aprendi a maldição das palavras cedo.
Mas o fato de ter jogado tanto fora… e agora notar que tudo que eu faço na vida é recriar aquilo, mas visto de um outro ângulo, isso é aterrorizante… é falta de controle da consciência na própria vida…

Mas que é consciência e ego? Talvez seja como uma ilha, rodeada de oceano, oceano até as profundezas, numa alma que é como um planeta inteiro.

E vem o passado me assombrar

O senso comum diz que o presente se constrói sobre o passado, o passado é imutável, assim, nosso presente é um caminhar cego, sem escolhas, preso, andar de coleira.

E o passado me assombra, o meu, o dos outros (aqueles com quem eu quero compartilhar o meu presente).

Mas tem tanta “filosofia de bolso” por aí que sugere outras formas de encarar o passado… Só porque é “barata” não é inválida.

As pessoas falam de flexibilidade, de adaptabilidade, mas não suportam isso, dizem que ser volúvel denota falta de caráter.

O passado vive na nossa memória, e nossa memória conversa com a dos outros. Os fatos podem não mudar, mas o que a gente pensa deles muda, ah muda.

E vem o passado me assombrar.

Sempre tive medo que a “história se repetisse”, e, sem notar, fui repetindo as mesmas atitudes e mesmas reações. Reconstruí o passado no meu presente.

Uma, duas, três vezes. Coloca os tijolinhos no mesmo padrão, fileira sobre fileira, história sobre história. Estou construindo um muro. Um muro pra me isolar do mundo.

Vai, eu mereço uma janela nesse muro. Eu mereço o que eu quiser. É bem o lema que ando levando, se imaginei, eu posso ter. Isso é assumir a responsabilidade da minha própria vida, não usar um deus ou diabo ou amigo como costa-larga, pra culpar das coisas que não dão certo ou dão na minha vida. Se aconteceu, a culpa ou crédito é minha, só minha.

O passado me assombra porque eu decidi amar as pessoas lá atrás, não deu certo, eu tive raiva, eu tive medo, mas o amor ficou, e talvez fique pra sempre, mas agora eu quero minha janela, não é pra viver de novo a mesma história com outra pessoa, como se estivesse vendo um remake de um filme antigo.



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13
Dec
2010

Daniel E.

“Meu distúrbio, não diagnosticado pelos mais renomados especialistas, não aceito pelos filósofos e religiosos, torna insuportável a minha vida. Todos à minha volta temem a morte, eu temo o nascimento. Devo explicar a minha situação, porque não tenho amigos que saibam dela e pretendo terminar a minha vida de uma forma que me seja familiar [...]

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