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11
Dec
2010

É outra coisa. Mas exatamente igual.

Primeiro desci aquela escada, de um cinza cru que parecia sujo, até o subsolo. Muita gente fazia o mesmo, com passo apressado, sem olhar para os lados, como não se notassem. Vestiam tantas cores, mas as roupas eram tão parecidas (talvez não pensassem assim, pensassem as diferenças mínimas e quase imperceptíveis como cabais) e seus cabelos, suas expressões de incômodo constante (como podem não fazer nada contra isso?) sempre muito parecidos.

Passei pelos braços de metal, depois de encostar um retângulo de plástico em um sensor (feio como as escadas, as paredes e tudo à minha volta – sem graça, de desenho apenas utilitário) e desci mais.

Cinza, de novo, só uma parede agora tinha uma faixa colorida, verde bandeira. Um buraco, qual sulco na terra, com barras paralelas enormes de um material que parece ser uma liga de ferro, seguiam por seu fundo até entrar num túnel, dos dois lados.

De um dos lados vi o túnel se iluminando: vinha uma caixa de metal com faróis, e conforme passava via que outras caixas estavam atreladas à primeira. Portas se abriam, na mesma altura que a plataforma onde eu estava. Pessoas saíam, entravam, se acotovelavam; infelizes, como sempre.

(Se tudo é motivo de infelicidade, por que não fazem diferente?)

Entrei também eu. Lá dentro tudo era iluminado, todos se sentaram em bancos coloridos. Aqui dentro as paredes tinham cores suaves, também o chão – apesar de ainda parecer muito sujo.

E aquilo voltou a se mover. Ninguém pareceu dar importância. Notei que quem tinha bolsa a segurava no colo; abraçada, sempre; mesmo o moço que dormia (pelo seu rosto tranquilo pensei ser um enfermeiro ou estudante de medicina, não podia ser médico formado, cheio das preocupações diárias não teria a expressão tão tranquila: que desmanchou, depois, quando ele acordou, voltando à comum face infeliz).

Uma voz feminina soou vinda de todo canto: “Próxima estação: Chácara Klabin”. Voz feminina no subsolo, no “útero da Terra”, porque soa como mãe? Mas ela não tinha voz de mãe de todos, era voz jovem, mas não infantil ou adolescente. Mas porque imitar o conforto materno em lugar tão iluminado? Associam a luz ao primeiro lar? Mas não é em um ambiente tão claro como este que a maioria desses (exceto aqueles que nasceram de parto humanitário) sofreu a primeira perda, o primeiro trauma? Porque recriar isso?

E pensando nisso passaram outras estações (nome curioso isso tem, associei com “lugar pra se estar”, mas é “lugar que se para”), como a misteriosa voz anunciou. Passaram lugares cinzas, voltamos à superfície e descemos de novo, uma estação com luzes verdes. Por que verdes? Depois branca. E não bastando voltar à superfície, fomos a uma ponte alta sobre um rio, e debaixo da terra de novo.

E apesar de mudanças assim, ninguém mudou a expressão, tudo era tédio nos olhos dessas pessoas. Andavam por sob e sobre a terra numa caixa de metal sobre trilhos, vestindo roupas estranhas que atrapalham a mobilidade, e que pioram a sensação de calor, se irritariam se eu dissesse que aquilo é um trem, chamam de metrô, e só metrô. Trem é outra coisa. Mas exatamente igual.

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13
Dec
2010

Daniel E.

“Meu distúrbio, não diagnosticado pelos mais renomados especialistas, não aceito pelos filósofos e religiosos, torna insuportável a minha vida. Todos à minha volta temem a morte, eu temo o nascimento. Devo explicar a minha situação, porque não tenho amigos que saibam dela e pretendo terminar a minha vida de uma forma que me seja familiar [...]

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