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29
May
2008

Carta a Ninguém (ou a Todos que Moram no Mundo Dentro de Mim) I

Criar faz a gente entender mais de si e daquilo que nos rodeia. Acaba sendo um reflexo, enfeitado, rebuscado e idealizado, do que vemos, não da realidade. E criar nos daz perceber o quanto a realidade em si é subjetiva.

Escrever, criar um mundo de fantasia – nem sempre um mundo t√£o diferente do que vivemos – faz a vida ter outro sentido. As loucuras ficam menos estranhas, entender √© mais f√°cil. Talvez a √ļnica coisa que mude √© a forma como encaramos tudo, √© a nossa realidade, e talvez ningu√©m mais note a diferen√ßa.

Já não é segredo, caro ninguém, que eu crio um mundo fantasioso, brinco com a realidade e a percepção: escrevo contos, pequenos e grandes.

E como reflexo, mesmo que maquiado, o que se escreve √© uma forma de exposi√ß√£o, do mais √≠ntimo, do mais sombrio, do mais luminoso tamb√©m, de quem cria. Sendo exposi√ß√£o de qualquer forma¬† – e sendo uma √ļnica obra √© dif√≠cil dar volume e cor √† tudo, √© dif√≠cil que qualquer narrador possa contar algo que n√£o viu, que n√£o interpretou, assim, meus contos s√£o interpreta√ß√Ķes minhas de uma realidade que pude contemplar, e √© arrogante dizer que tudo veio de minha imagina√ß√£o, de meu racioc√≠nio, e exclusivamente meu. Mesmo a fantasia acontece entre os fios da realidade, e meus contos s√£o minha interpreta√ß√£o, meu ponto de vista, minha fotografia meu retrato. – e como eu dizia, sendo exposi√ß√£o de qualquer forma, que eu ofere√ßa uma outra vis√£o do que crio, mesmo ainda n√£o tendo mostrato ao grande p√ļblico a cria√ß√£o em si.

Sempre me diverti com a idéia de trindade, não só a cristã, mas o conceito em si. Do Tao que diz que do um vem o dois, e dois se tornam três e três em dez mil (e dez mil é uma alusão ao que o ocidental chama de infinito, mas acredito ser mais poético chamar de incontável). A idéia de um deus criador, um mantenedor e um destruidor. Ou, o deus individual, a sua manifestação e sua centelha em todos criados.

Mas na minha história eu precisei de cinco, não três. E são cinco porque um é antes de qualquer divisão e depois da fusão, se houver, e outro é o que restou, é a loucura que qualquer indíviduo recusa solenemente (fosse de outra forma já seria considerado louco).

Cinco, um deles sou eu, mas ele é a tangente da história. No começo era ele, e ele não tinha o que fazer. Um vento de inspiração se apossou dele, o vento do espírito daquele tempo, o Zeitgeist da fantasia que eu vislumbrei. E como disse o lendário Lao Tsé, de dois necessariamente vem três. E também é a lei da Dialética: tese e antítese se unem formando a síntese.

Do um, que se tornou dois, vieram mais.

Ele se divide em quatro. Como s√£o quatro as fases da lua (mas a lua sempre √© representada com tr√≠plice face). Como s√£o quatro as idades dos homens: a inf√Ęncia, a maturidade, a velhice e a morte. S√£o quatro esta√ß√Ķes.

São quatro, cada um nascendo à sua vez e sendo dotado das qualidades do primeiro.

A primeira herdou a sabedoria sobre o mundo em que vive (o da fantasia criada), sobre os tempos (Passado, Presente, Futuro e o outro), sobre os planos da exist√™ncia (o Ct√īnico, o Superficial, o Celeste e o outro), ela sabe tanto que fecha os olhos para tudo. √Č dada como cega por ver demais, como os videntes gregos (na verdade os cegos eram considerados muito s√°bios e possuidores de conhecimentos ocultos). Seu nome veio de um trocadilho idiota que uma vez falei pra um cachorro, enquanto o alimentava. E √© a personagem mais antiga que eu criei, em torno dela surgiu o mundo, e em torno do mundo a minha vida gira. Ela √© uma deusa pessoal, mas √© cria√ß√£o minha. Sua imagem √© inspirada na hist√≥ria de uma letra do alfabeto e na forma como eu a escrevia quando a criei. Ela instiga o universo e sempre come√ßa as hist√≥rias.

Ao segundo – n√£o segundo personagem, mas segundo na destila√ß√£o do que √© todos – veio a sedu√ß√£o, a imagem de inoc√™ncia, a perversidade, o instinto de auto-preserva√ß√£o superando qualquer outro valor, mas ele sabe que para se preservar precisa preservar o mundo em que vive, precisa manter a ordem ou saber viver no caos. √Č o mais covarde, mas o mais belo e ardiloso dos covardes.

O terceiro √© guerreiro, cruel, terr√≠vel, monstruoso, destruidor. √Č inimigo de seus irm√£os de alma, √© sozinho tamb√©m, e n√£o teme a pr√≥pria destrui√ß√£o. Odeia a primeira, deseja destru√≠-la, mas nunca consegue encontr√°-la. Os dois provavelmente se aniquilar√£o no fim do mundo.

O quarto √© a esc√≥ria, √© ignorado pelos tr√™s, √© a sombra de tudo, √© a sobra do que os tr√™s n√£o aceitaram. √Č a loucura. √Č a insanidade. Ele se esconde at√© da noite, mas onde anda deixa um rastro. N√£o √© real, n√£o √© material ou espiritual, √© apenas o que sobrou, e por isso ser√° a vestimenta do segundo depois que ele beber a mistura do sangue dos outros dois. Mas isso s√≥ pode se passar no quarto espa√ßo, no quarto tempo, no ponto onde tudo come√ßou, onde tudo era nada.

Mas ainda existem outras formas da trindade a se brincar, ainda existem outras formas de brincar de realidade na fantasia… e sobre elas eu conto depois.

Discussão

Fillipe diz:

Sabe um lago de superfície calma, tão espelhada e quieta que parece sólida? Mas que, na verdade, esconde um lago tão profundo quanto um abismo e naum passa de um véu abstrato e escorregadio, ou mesmo, uma louca armadilha? Sabe?

Eh isso.

ÔĽŅ

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13
Dec
2010

Daniel E.

‚ÄúMeu dist√ļrbio, n√£o diagnosticado pelos mais renomados especialistas, n√£o aceito pelos fil√≥sofos e religiosos, torna insuport√°vel a minha vida. Todos √† minha volta temem a morte, eu temo o nascimento. Devo explicar a minha situa√ß√£o, porque n√£o tenho amigos que saibam dela e pretendo terminar a minha vida de uma forma que me seja familiar […]

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