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Adaptações

Quando eu comecei a escrever imaginava editoras e o mercado como um vilão, destruindo a criatividade, mutilando a obra e enxertando imagens inapropriadas com o que idealizei.

Quando comecei a trabalhar como designer passei pela mesma situação. Mas logo percebi que insistir nessa idéia seria investir num stress e numa doença posteriores.

Mas a postura continua por aí, eu sempre vejo. E eu acredito que essa flexibilidade tem muita ligação com o meu post anterior.

Semana passada comecei a ver uma série nova da Warner, inédita no Brasil, chamada Merlin – indicação do Fake. No orkut algumas pessoas reclamam que o roteiro da série não é fiel à “verdadeira história” do Rei Arthur. Não vou me extender dizendo que não existe uma “verdadeira história” e sim várias versões, como é comum em qualquer mitologia, ainda mais na celta.

Um problema parecido veio quando lançaram O Senhor dos Anéis no cinema, apesar de não tão diferente à história original do livro.

E quantas outras adaptações passaram por isso? Beowulf recentemente, por exemplo.

A versão mais antiga de Beowulf é do ano 1000 da Era Comum (ou Cristã), escrito em antigo inglês, provavelmente copiada por monges, e cheia de “enxertos” e “adaptações” cristãs ao que se supõe ser a história original, pagã. O filme é só mais uma das adaptações em cima da história, tirando a visão cristã. Outras fantasiam sobre isso.

As áreas da literatura e do design têm algo em comum: a criação. E apesar de eu não ser um escritor profissional já experimentei e estudei um pouco do que é “escrever”. E como qualquer profissional, não se trabalha somente pela arte, mas se têm em vista o mercado – e o mercado é feito de pessoas que compram sua idéia se se sentirem tocadas, se houver comunicação com o “mundo interior” delas, com seus valores, princípios e emoções, incluindo o medo e o desejo.

Exemplo prático: um dia na agência que trabalhei desenvolvi uma peça com fundo escuro. Ficou linda, mas o cliente pediu para deixar o fundo branco, eu resmunguei, mas mudei a cor do fundo, os efeitos que tinham ficado bons para o fundo escuro ficaram terríveis no fundo branco, então eu refiz todos os efeitos e suavizei. Mantive a “alma” da peça, mas clareei. Eu já vi gente simplesmente mandando o fundo de cor trocada e reclamando que o cliente destruiu a peça, faltou tato, na minha opinião.

Acontece isso com adaptações para o cinema, para o teatro, para qualquer coisa! A alma não está nas formas ou nas cores, nas palavras. Beowulf foi adaptado para os tempos cristãos e se manteve. Senhor dos Anéis teve que ser passado para a linguagem do cinema, algo teve que ser cortado ou refeito. A alma da criação é o efeito que se espera nas pessoas, como ele é feito é irrelevante.

E voltando ao Merlin, a série não pretende reconstruir a história de Arthur, é uma criação nova, para um público diferente, e obviamente toda a história mudou, foi uma adaptação, absolutamente não fiel ao original, mas eu estou gostando do que vi, me entretem.

Discussão

B. diz:

faz tempo que não venho aqui. =)

:*

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03
Aug
2010

Catacrese

Ingênuo pensar que uma língua é capaz de comunicar todos os conceitos possíveis. Como o é pensar que nada sobra de desconhecido no mundo depois que tudo foi mapeado, ou que nada acontece sem lógica. Existe um mundo inteiro conceitual, em constante transformação, lentas ou não. Cada palavra é indicação de uma região no mapa [...]

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